10
maio
11

O sonho do futebol europeu: bye bye Brasil

Prof. Nei Jorge dos Santos Junior
Mestrando em História Comparada (UFRJ)
edfnei@hotmail.com

           Em meio à crise mundial, o Manchester City – clube adquirido em 2008 pelos investidores do Abu Dhabi United Group – ofereceu ao Milan 120 milhões de euros (R$ 365 milhões), para contar com o meia-atacante Kaká na temporada 2009. Kaká receberia equivalente a 19 milhões de euros (R$ 58,5 milhões) por temporada. O jogador, apesar da grande quantia, optou pela não transferência, por não ver o clube inglês como grande potência no cenário Europeu, além dá não classificação do clube inglês para principal competição Européia – Champions League –, sendo negociado, meses depois por 65 milhões de euros (cerca de R$ 178 milhões), para o clube espanhol Real Madri de acordo com informação divulgada pelo jornal espanhol Marca (Marca, 02/06/2009).

          Esse caso corriqueiro nos principais clubes da Europa ajuda a entender um discurso tão presente nos jogadores brasileiros, o sonho de fazer sucesso e consegui estabilidade financeira no futebol do exterior. Esse discurso atrelado à desigualdade econômica entre o futebol europeu e o futebol nacional reflete no número de transferências de jogadores brasileiros nos últimos anos para o mercado internacional.

          No mundial de 2002 apenas treze jogadores, o que significa menos de 2% do total de inscritos na competição atuava no Brasil. Nos mundiais de 2006 e 2010 o caso acentuou-se: apenas três inscritos, o que significava menos de 1% do total jogavam em clubes nacionais. Sob essa ótica, percebemos que o Brasil transformou-se claramente num grande exportador de jogadores, onde segundo dados da CBF[1] somente em 2008, foram registradas1176 transferências de jogadores, para clubes de 95 países[2].

 

Ano de transferência a partir de 1989
Total de jogadores transferidos[3]
1989
132
1990
136
1991
137
1992
205
1993
321
1994
207
1995
254
1996
381
1997
556
1998
530
1999
658
2000
701
2001
736
2002
659
2003
858
2004
857
2005
804
2006
851
2007
1.085
2008
1.176

 

           Este crescimento desmedido na transferência de jogadores para o exterior configura uma nova realidade no mercado socioeconômico do futebol brasileiro. Esta nova configuração tem afetado profundamente a sobrevivência  dos clubes  brasileiros, restando apenas a função de formadores de “pés de obra” para serem oferecidos ao mercado internacional (ALVITO, 2006).

           Para tomar como exemplo, após um excelente Campeonato Carioca pelo Botafogo F.R. sendo eleito o melhor jogador do campeonato. O meia Maicosuel foi vendido ao Hoffenheim da Alemanha por 4,5 milhões de euros (R$ 12,8 milhões). O clube carioca se esforçou em cobrir a oferta, mais percebeu que a negociação era desigual comparada à situação financeira dos clubes nacionais. A justificativa do jogador Maicosuel esta presente na grande maioria dos jogadores: buscar melhores condições salariais para fazer o “pé de meia”(O globo, 22/05/09).

           Para tornar explícita a desigualdade financeira que ronda os clubes nacionais comparados aos clubes europeus, buscamos analisar duas pesquisas referentes aos dez maiores salários de jogadores de futebol no Brasil e no continente Europeu. A primeira, realizada pelo site português Futebol Finance aponta os dez maiores salários no futebol Europeu com base na temporada 2009/ 2010, a segunda pesquisa realizada pela Revista Placar em junho de 2010 indica os dez maiores salários no futebol brasileiro[4].

 

#
Jogador
Clube
Mensal
Anual
1
Cristiano Ronaldo
Real Madrid CF
1.083.000 €
13.000.000 €
2
Zlatan Ibrahimovic
FC Barcelona
1.000.000 €
12.000.000 €
3
Lionel Messi
FC Barcelona
875.000 €
10.500.000 €
4
Samuel Eto´o
Internazionale
875.000 €
10.500.000 €
5
Ricardo Kaká
Real Madrid CF
833.000 €
10.000.000 €
6
Emmanuel Adebayor
Manchester City
708.000 €
8.500.000 €
7
Karim Benzema
Real Madrid CF
708.000 €
8.500.000 €
8
Carlos Tevez
Manchester City
666.000 €
8.000.000 €
9
John Terry
Chelsea FC
625.000 €
7.500.000 €
10
Frank Lampard
Chelsea FC
625.000 €
7.500.000 €

Fonte: futebolfinance.com[5]

#
Jogador
Clube
Mensal
1
Ronaldo
 Corinthians
R$ 1.800.000,00
2
Deco
 Fluminense
R$ 550.000,00
3
Deivid
Flamengo
R$ 475.000,00
4
Fred
 Fluminense
R$ 460.000,00
5
Kléber
 Palmeiras
R$ 373.500,00
6
Neymar
 Santos
R$ 305.000,00
7
Roberto Carlos
 Corinthians
R$ 300.000,00
7
Felipe
 Palmeiras
R$ 300.000,00
7
D’Alessandro
 Internacional
R$300.000,00
7
Rafael Sóbis
 Internacional
R$ 300.000,00

Fonte: Revista Placar setembro de 2010. 

         Percebemos que a desigualdade econômica reflete diretamente no destino dos principais jogadores brasileiros. Onde, dos quase US$ 250 bilhões que esse mercado movimenta ao longo do ano, a parte brasileira não chega a 3%. Escasso, se comparado com os resultados e prestígio obtidos dentro de campo. 

         Nesse sentido, podemos apontar diversos fatores que pode nos ajudar a entender esse processo escasso, um deles seria que entre os 20 clubes mais ricos do mundo, apenas três deles tem modelo semelhante ao dos times brasileiros, mostrando a necessidade de modernização do futebol brasileiro, motivo real pela perda precoce dos seus principais jogadores. Notadamente, mesmo com o fato de a seleção brasileira ser a única pentacampeã do mundo, o campeonato brasileiro foi somente o quinto principal campeonato do mundo em 2008, segundo o ranking realizado pela IFFHS[6], o que mostra a fragilidade na organização da principal competição nacional.

Considerações finais

         De fato, esse caminho percorrido pelos clubes brasileiros salientou a venda de jogadores como principal fonte de receita dos clubes, o que ocasionou a falta de identificação com o público, ao ponto de não lembramos o clube brasileiro que o jogador havia defendido antes de sua venda.

         Contudo, ao traçar uma discussão sobre esse processo de mundialização do futebol brasileiro, percebe-se a capacidade de penetrabilidade social na resignificação de novos valores de uma cultura internacional-popular, atraindo olhares significativos de todas as companhias do mundo.

        É importante salientar a contribuição dos avanços tecnológicos dos meios de comunicação de massa, sobretudo, a mídia televisiva que socializa valores atrelados à indústria do consumo, na transformação da prática de futebol em business e seus personagens – jogadores de futebol – em verdadeiras estrelas hollywoodianas.


[1] Confederação brasileira de futebol.
[2] Dados retirados do site oficial da CBF, disponível em WWW.cbf.com.br
[3] Dados retirados do site oficial da CBF, disponível em WWW.cbf.com.br
[4] As listas produzida pela Placar levam em conta todos os rendimentos que os jogadores e os técnicos recebem. O cálculo é feito com a soma de salários, direitos de imagem, luvas, receitas geradas com publicidade e outros pagamentos. Com base nesses valores, faz-se uma média dos rendimentos mensais de cada jogador
[5] Salários referentes à temporada 2009/2010 publicado pelo site português Futebol Finance, disponível em WWW.futebolfinace.com
[6] International Federation of Football History & Statistics
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