07
set
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REFLEXÕES SOBRE O CORPO FEMININO NA TV

Prof. Nei Jorge dos Santos Junior
Mestrando em História Comparada (UFRJ)
 

As práticas corporais, dadas suas características expressivas, permitem a percepção de que é a cultura que proporciona a gênese, a incorporação, a ressiginifcação e a socialização das diversas formas de manifestações corporais. É por meio das produções culturais que os homens e as mulheres estabelecem uma relação comunicativa com a sociedade. Isto implica o entendimento da cultura como um texto a ser lido, portanto, interpretado. Nesse sentido, Neira e Nunes (2006) afirmam que a gestualidade presente e característica de cada forma de manifestação da cultura corporal configura um texto passível de leitura e interpretação.

Os textos produzidos pela gestualidade são compreendidos como meios de comunicação com o mundo, constituintes e construtores de cultura. Cada texto é uma linguagem, com especificidade própria a ser interpretada, o que impossibilita adjetivar, mensurar ou comparar qualquer produção cultural e suas formas de linguagem. O estudo das formas simbólicas mediadas pelas relações humanas dá-se em meio ao contexto no qual esses textos e seus significados são produzidos, transmitidos e assimilados.

A partir daí é possível compreender a importância pedagógica de atividades que promovam a leitura e interpretação da linguagem corporal. O argumento central é que ao movimentar-se os homens e mulheres expressam intencionalidades, comunicam e veiculam modos de ser, pensar e agir característicos, ou seja, culturalmente impressos em seus corpos. Por este pensamento, entende-se que o corpo é também um suporte textual, nele se inscrevem a história e a trajetória dos homens e mulheres em meio à cultura.

É pela interpretação dos textos corporais, afirmam Neira e Nunes (2007), que se nota a disponibilidade do momento (alegria, tristeza, cansaço, raiva, sono) ou, de maneira mais profunda, a trajetória de vida, a posição social, a profissão, as origens sociais etc. Percebe-se, por exemplo, que a vida sofrida das populações mais humildes está inscrita nos seus corpos de uma forma bem diferente que a opulência das elites. A construção do gênero em uma determinada sociedade dirá quais gestos são adequados ou não para os meninos e homens e para as meninas e mulheres – chorar, formas de sentar-se, de andar, de gesticular etc.

Seguindo esse raciocínio, os signos impressos no corpo são interpretados, também, a partir da experiência cultural de quem lê. Um sorriso, uma piscadela, um “dar de ombros”, usar batom, saia comprida, piercing e tatuagem, entre outros, recebem diferentes significados conforme o patrimônio disponível aos leitores e leitoras. Conseqüentemente, também as formas de olhar o corpo feminino são internalizadas segundo os discursos e representações veiculados e, caso não sofram questionamentos, é bem possível que permaneçam enraizadas. De acordo com Bourdieu (2000), a significação social dos órgãos sexuais torna-se objeto não do registro de propriedades naturais expostos à recepção, mas do processo de salientar diferenças atreladas em semelhanças. Essa definição social das partes do corpo é produto de uma construção desenvolvida à custa de uma série de opções por meio da ênfase em certas diferenças, ou do ocultismo de certas semelhanças, já que a diferença sexual é comprovada visivelmente, concretizando a definição estabelecida socialmente entre sexo forte e sexo frágil.

Sintomaticamente, Santos e Hoff (2006) relatam que ao  constituir-se como plano natural em que o poder se reflete nos processos de subjetivação, ou seja, na forma de constituição do sujeito:

o corpo se estabelece como produção simbólica, espécie de aparato cultural em que as marcações identitárias deixam vestígios nos seus modos de expressão. O corpo contemporâneo é, portanto, um corpo-signo. E, neste sentido, é a cultura midiática que ressignifica, de tempos em tempos, os valores que devem estar gravados nos trejeitos e nos contornos deste corpo (p.15).

 Se mantivermos em tela o poder disseminador dos textos imagéticos, será possível afirmar que as práticas cotidianas da cultura midiática constroem e renovam o ideal da feminilidade. Graças aos meios de comunicação de massa, um número infinito de variantes desta imagem forma o meio visual, físico e sociocultural das mulheres, apontando um campo fértil a representações sobre o consumo que serão incorporadas e mediadas através da espetacularização mobilizada por representações de identidade, estética e normas sobre o corpo feminino (FORSYTH,2003).

A posição que lhes é imposta por meio desses textos as situa incessantemente sob o olhar dos outros: homens e mulheres, conscientes do seu próprio reflexo. O autor conclui que, segundo as imagens irradiadas, as mulheres são ou deveriam ser magras, brancas e ricas o bastante para se vestir e maquiar-se segundo a última moda, eternamente jovens e felizes, sem imperfeição, dóceis e passivas, heterossexuais, preocupadas com a compra de produtos de beleza e com o seu dever de agradar sexualmente aos homens. Diante uma relação simbiótica, essa aceitação do mito da beleza e a adesão às mediações oferecidas pelos MCM parecem se intensificar no momento da história ocidental em que se concebe como já adquirida a liberação do corpo feminino. Nesse sentido, Naomi Wolf (1991) trabalha com a hipótese na qual o mito da beleza, a partir de sua renovação, possibilita a construir  a feminilidade, exercendo de certo modo um controle sobre os corpos femininos.

 A partir do momento que o movimento feminista conseguiu desmantelar a maior parte das outras ficções da feminilidade, todo o trabalho de controle social, apoiado antigamente sobre uma rede de ficções, foi redistribuído sobre o único fio que permaneceu intacto (…) O trabalho da beleza efêmera ainda que inesgotável (…) reconstruiu um mundo feminino alternativo com suas próprias leis, sua economia, sua religião, sua sexualidade, sua educação, e sua cultura, todos elementos tão repressivos quanto os outros que os precederam (p. 16).   

Ao analisar a forma como os corpos femininos são veiculados nas propagandas, Shaw (2003) constatou uma certa representação homóloga, ou seja, construída socialmente pelo indivíduo no sentido em que é apreendida e expressa. Suas relações se realizam através de imagens que refletem e reproduzem qualidades, tipos, e níveis de atividade, que “re-cria, reflete, e re-afirma esta socialização” (p.196). O discurso insidioso incita as mulheres a assumirem papéis e construírem sonhos convenientes às narrativas do mito da beleza, levando-as a adotar como desejos próprios, as vontades alheias. Nota-se, portanto, que no núcleo das práticas culturais figuram modos particulares de olhar o corpo e o rosto feminino, modos que se reiteram e se reforçam em todos os domínios da publicidade, da televisão, do cinema e da Internet.

A repetição e reiteração do discurso midiático acerca do corpo feminino vai habituando o público, desde a mais tenra idade, a partilhar das imagens e mitos impostos por meio de narrativas, que passam a ser aceitas como evidentes. Importa saber o que leva a mídia a proceder assim. Suspeitamos que o que está em jogo nada mais é do que espetacularizar e transformar essa exposição em audiência, mediante associações aos produtos de consumo. Afinal de contas, subliminarmente ou explicitamente, os corpos atraentes encontram-se vinculados à socialização de práticas culturais específicas, tais como, higiene (cremes, xampus, loções, sabonetes), entretenimento (viagens, TV a cabo, bebidas alcoólicas), alimentação (sucos, chás, margarinas) ou a situações que conferem status (automóveis, imóveis, eletrodomésticos). Em suma, quando o corpo feminino desejante é inter-relacionado aos produtos comercializáveis, transmite-se a idéia de felicidade e bem-estar.

A TV, assim, adquire a capacidade de tornar-se um instrumento eficaz para a conservação da ordem estabelecida, dado que, os meios de comunicação em massa estão nas mãos de poucos grupos dominantes que disseminam, a partir de sua cultura e de seus referenciais, os modos de viver, pensar e agir. O fato de que alguns poucos conglomerados monopolizam a fatia mais importante da mídia mundial (OLIVEIRA,  2004), torna possível inferir que as maneiras de pensar distintas da ideologia de mercado, bem como os valores pertencentes a outras culturas, encontram espaço reduzido, previamente demarcado, para se manifestar.  

É sabido que as transmissões televisivas são decididas por um pequeno grupo de pessoas. Enquanto certos conteúdos são amplamente divulgados, outros, nem sequer são mencionados. Nesse sentido, cabe perguntar quais interesses estão pautados na seleção das imagens corporais que vão ao ar? Quais são os referenciais dos “selecionadores”? Será que os diversos grupos que compõem a sociedade vêem-se representados na telinha?

Se lembrarmos que os Estudos Culturais configuram a cultura com um campo de lutas, concluiremos que as imagens veiculadas pela mídia encontram-se atreladas a um grupo restrito de “selecionadores” que valorizam determinadas práticas culturais de higiene, entretenimento, alimentação etc., o que não significa que a audiência seja levada a pensar e a agir como sugere o discurso midiático. Até porque, é possível selecionar o que assistir, rejeitar e negar as mensagens transmitidas. Além disso, podemos inferir novas leituras que produzam outras significações a partir das nossas experiências pessoais e da comparação e confrontação das informações e dos saberes apresentados pelos meios de comunicação de massa com àqueles advindos da realidade social. Mesmo assim, reforçamos, no campo das lutas simbólicas, a mídia, principalmente a televisiva, detém um poder desigual de significação das práticas sociais.

Referências

BOURDIEU, P. La dominación masculina, Barcelona: Anagrama, 2000.

FORSYTH, L. H. Pela reapropriação do corpo das mulheres e das meninas, ainda sob o olhar dos outros na cultura popular das sociedades patriarcais. Labrys, estudos feministas. n. 03, janeiro/julho 2003.

OLIVEIRA, C. B. Mídia, cultura corporal e inclusão: conteúdos da educação física. Lecturas: Educacion Física y deportes, Buenos Aires, v.10, n.77, out. 2004.

NEIRA, M. G.; NUNES, M. L. F. Pedagogia da cultura corporal: crítica e alternativas. São Paulo: Phorte, 2006.

_________. Pedagogia da cultura corporal: motricidade cultura e linguagem. In: NEIRA, M. G. Ensino de Educação Física. São Paulo: Thomson Learning, 2007.

SANTOS, L. L. e HOFF, T. Da cronobiologia aos neurocosméticos: o advento do corpo-mídia no discurso publicitário da beleza. In: 15º Encontro Nacional da Associação Nacional dos Programas de Pós-Graduação em Comunicação, 2006, Bauru. Anais do XV Encontro Anual da Compós, 2006.

SANTOS JR, N. J. Espetacularização esportiva na TV: ações e desafios à Educação Física escolar. Lecturas Educación Física y Deportes (Buenos Aires), v. 12, p. 111, 2007.

SHAW, I. S. O corpo feminino na propaganda. In: BERNADETTE, L; SANTANA, G. (Orgs.). Corpo & Mídia. São Paulo: Arte & ciência, 2003, p.193-206.

WOLF, N. O mito da beleza: como as imagens de beleza são usadas contra as mulheres. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

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1 Response to “REFLEXÕES SOBRE O CORPO FEMININO NA TV”


  1. 1 Janaina dos Santos
    07/09/2010 às 23:57

    Tudo pelo sistema.
    Beleza, grandiosidade, tudo com muita ênfase. A maioria midiática, assim como alguns políticos do nosso Brasil visam o que possivelmente estará lhe trazendo benefícios como: modinha,escândalos, entre outros…afim de alucinar os cidadãos.
    Mais eu como muitos desta população crítica, buscamos não extinguir a mídia de nossas vidas, mais com certeza ter mais cautela e investir em seleções mais adequadas que se encaixem em nosso cotidiano.
    Uma grande iniciativa de um produto, entre muitos, foi ter colocado idosos em um comercial super animado, mostrando a face de consumidores assíduos a muito tempo.
    Por que só colocar um belo corpo se o produto em questão ( cerveja) é destinado a todos ( maiores de 18 anos) sem exceção?!…


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