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UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O PROCESSO DE RESISTÊNCIA CULTURAL À CAPOEIRA NO RIO DE JANEIRO

Prof. Nei Jorge dos Santos Junior.
Mestrando em História Comparada (UFRJ)

Introdução

          A capoeira é uma luta propriamente dita nacional. Interesses por sua diversidade atraíram olhares eruditos de grandes escritores e uma forte influencia cultural, que teve na cidade do Rio de janeiro seu epicentro.
           A capoeira mesmo com seu ar de liberdade após a abolição da escravatura continuou sendo alvo de perseguições por parte do sistema governamental atuando com repressão decisiva, construindo leis que tentavam exterminar por completo a capoeira do estado do Rio de Janeiro, jogando-os no porão de um vapor da marinha e deportados para distante ilha de Fernando de Noronha, sem prazo para voltar. A perseguição policial movida contra as maltas de capoeiras durante os governos do Segundo Reinado pode ser comparada a uma sucessão de ondas, que se seguem depois de longos tempos de calmaria. Este perfil pode ser inicialmente entendido como resultante da rede de relações que a capoeira construiu, durante décadas, com o aparato policial-militar e com as elites políticas do Império. Esta simbiose, contraditória complexa, que tentaremos entender em toda a sua magnitude, explica o duplo caráter das vagas repressivas lançadas contra as maltas, às vezes buscando realmente eliminar a capoeira como prática criminal, outras vezes pretendendo simplesmente aliciá-los como aliados ocasionais de interesses políticos.
 
 
A década de Medo
 
            Essa década foi de mudanças também na estrutura policial na Corte. A guarda Nacional, antes totalmente controlada por pelos potentados rurais e grandes proprietários urbanos, passa sofrer maior controle do poder central. A construção da Casa de Correção da Corte, concluída em 1855, a primeira penitenciaria do país, refletia o esforço das autoridades nacionais em equiparar a estrutura Jurídica-policial da cidade com aquela se caracteriza as grandes cidades da Europa e dos Estados Unidos. 
            No limiar da década de 50, o chefe de polícia da Corte inicia uma fugaz ofensiva contra os pontos de reunião das maltas, localizado principalmente na freguesia de Sacramento e Calendário, as mais centrais da cidade. Mais a falta de coordenação com o comando da Policia  Militar da Corte faz fracassar a tentativa. Era sintoma da necessidade de reorganização da policial da capital do país.
          A repressão de 1849 aos capoeiras foi uma espécie de balão de ensaio do que viria depois. Confrontando com constantes conflitos entres as maltas na área mais central, o chefe de policia estava desafiado a mostrar autoridade em sua jurisdição, a mais importante do país, pela proximidade com os centros nervosos da vida política da nação, como o Parlamento e Paço Imperial. Em principio, ele tentou processar judicialmente aqueles presos como capoeiras. No fracasso desta medida ele recorreu ao recrutamento militar, e para aqueles não cabíveis em tais providencias, a assinatura dos termos de bem viver, documentos que obrigavam os signatários a procura trabalho, sob penas de prisão cada vez mais longas.   
  
De prática marginal; à Luta Nacional
 
          A capoeira com o fim da escravatura no Rio de Janeiro não significou a aceitação imediata da comunidade negra na vida social. Ao contrário, vários aspectos da cultura afro-brasileira, sofreram violenta repressão, como a capoeira no Rio de Janeiro.
          Segundo vieira (1995) Essa forma de rebeldia, antes utilizada como arma de luta entre inúmeras fugas durante a escravidão, tornou-se um símbolo da resistência cultural do negro. Assim o governo republicano, instaurado em 1889, deu continuidade a política da repressão e associou diretamente a criminalidade a capoeira, como consta no decreto 847 de 11 outubro de 1890, com o título “Dos Vadios e Capoeiras “:
 
Artigo 402: Fazer nas ruas ou praças publicas exercícios de destreza corporal, conhecidos pela denominação de capoeiragem: pena de seis meses a dois anos de reclusa.
Único: É considerada agravante pertencer o alguma banda ou malta. Aos chefes, ou cabeças, impor-se-à  a pena em dobro.
 
          A capoeira estava de certa forma, integrada á vida do chamado malandro carioca, envolvendo, inclusive as camadas sociais privilegiadas, e é nesta época que ocorre um grande salto na história da capoeira. Insatisfeito com o preconceito e a marginalização que envolvia a arte-luta brasileira, Mestre Bimba resolve criar uma variação da capoeira Regional, que antes somente praticada na Bahia. 
          Mestre Bimba teve apoio de vários estudantes universitários de Salvador que contribuíram para a sistematização de suas idéias e para formulação de seu método de ensino. Bimba fundou a primeira academia de capoeira em 1932 (Centro de Cultura Física e Capoeira Regional da Bahia), ensinou capoeira em quartéis, apresentando uma roda de capoeira o presidente Getúlio Vargas, em 1953. (SANTOS, 1990). A luta brasileira, portanto começa a ser tratada como esporte nacional e surgem os primeiros estudos sobre sua utilização como método de defesa pessoal e ginástica.
         Em 1928, Annibal Burlamaqui publica “Gymnastica Nacional (capoeiragem)Methodisada e regrada” , e , em 1945, Inezil Pena Marinho, especialista em Educação Física, publica ‘Subsídios para o  estudo da Metodologia do Treinamento da Capoeiragem”. Segundo SANTOS (1990) Na História da capoeira, os anos 80 tem como característica o central avanço na organização dos grupos e todo um processo de retomada das antigas tradições.
 
         
         A capoeira já com características diferenciadas da época de perseguições começa elevar seu grau de conceito no momento que a capoeira como esporte e arte marcial foi incluída nas escolas e Universidades. Muitos cursos de Educação Física em todo país têm a capoeira como matéria curricular, o que faz com que os professores desenvolvam estudos no campo da capoeira. Nesse trajeto se destaca que em 1985 a 1990 a capoeira passou a fazer parte dos jogos Escolares Brasileiros (JEB´s), a mais importante competição  esportiva  do gênero no Brasil.

Referências

MARINHO, Inezil Pena. A ginastica Brasileira.1 ed. Brasília: Transbrasil, 1982.

SOARES , Carlos Eugênio . A negrada instituição: os capoeiras no Rio de Janeiro. 3.ed. Rio de janeiro: Coleção Biblioteca Carioca ,1994.

VIEIRA , Luis Renato. O Jogo de capoeira: corpo e cultura popular no Brasil. 2.ed. Rio de janeiro: Sprint, 1995.

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